Conhecido por sua impressionante capacidade de adaptação aos ventos do poder, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) iniciou uma manobra de distanciamento calculado de ninguém menos que o próprio Bolsonaro. Em entrevista ao SBT News, o ex-ministro da Casa Civil não hesitou em carimbar o ex-presidente Jair Bolsonaro como "radical" – o mesmo adjetivo que ignorou solenemente enquanto ocupava o gabinete mais importante do Palácio do Planalto.
A estratégia é clara: Ciro tenta "desinfetar" a imagem da família Bolsonaro ao elogiar a suposta moderação do filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). "Ele [Flávio] está muito bem na tentativa de demonstrar que não é radical como o pai", disparou Nogueira, em um movimento que nos bastidores é visto como a "fritura" pública do ex-chefe para viabilizar o herdeiro perante o mercado e o Congresso.
Ciro Nogueira: o "Vice" Profissional
O aceno de Ciro Nogueira a Flávio Bolsonaro expõe o desespero de quem busca uma boia de salvamento nacional. Após ver suas chances de ser vice na chapa de Tarcísio de Freitas (Republicanos) minguarem, o cacique do PP volta a focar no clã Bolsonaro.
Ao classificar o ex-presidente como radical, Ciro faz um jogo duplo: tenta atrair o centro e o PIB, que têm ojeriza aos arroubos de Jair, enquanto mantém o pé na canoa do bolsonarismo eleitoral através de Flávio. É o pragmatismo do Centrão levado ao extremo: descarta-se a figura do "pai" em nome da viabilidade do "filho" — e, claro, da própria sobrevivência política de Ciro.
Piauí se torna o Tabuleiro das Conveniências
No Piauí, a indefinição de Ciro sobre a candidatura ao governo estadual revela que o estado é apenas uma peça no seu xadrez nacional. Ao empurrar a decisão entre Joel Rodrigues e Margarete Coelho para depois da Semana Santa, o senador mantém ambos em banho-maria.
O plano é cínico, mas eficaz: se Flávio Bolsonaro ganhar tração para o Planalto, Ciro sacrifica a disputa pelo governo estadual. Nesse cenário, Joel Rodrigues — que detém capital político real no Piauí — seria rebaixado de candidato ao governo para "puxador de votos" ao Senado, servindo de escada para as ambições nacionais de Nogueira.
Memória Curta
A guinada de Ciro não surpreende quem acompanha sua trajetória de camaleão. Em 2018, o senador chamava Bolsonaro de "fascista" enquanto pedia votos para o PT. Meses depois, tornou-se o principal fiador do governo que agora critica por "radicalismo".
"Ciro se habilita para onde o cheiro do poder é mais forte", resume um interlocutor influente em Brasília. Para o senador piauiense, pouco importa a coerência ideológica; o que está em jogo é o assento na cadeira de vice-presidente, custe o que custar — inclusive a cabeça de seu antigo aliado.
Para Jair Bolsonaro, que enfrenta o cerco da Justiça sob a acusação de arquitetar um golpe de Estado — o ápice do radicalismo institucional —, o rótulo vindo de seu ex-ministro da Casa Civil é mais que uma análise: é uma certidão de isolamento. Ao carimbar o antigo chefe como 'radical', Ciro Nogueira não apenas tenta se descolar do passado, mas assina a primeira nota de despejo político do bolsonarismo de raiz, provando que, no pragmatismo do Centrão, a lealdade termina onde o risco eleitoral começa.