O Observador

Margarete Coelho é a “Miss Simpatia” em um campo de batalha

Enquanto o Progressistas hesita (sabe-se lá por quê) e o PT se devora em uma guerra civil silenciosa, a política dos 'abraços' de Margarete Coelho corre o risco de ser atropelada por um Piauí que não aceita mais a neutralidade.
Fábio Sérvio

Fábio Sérvio

A política decodificada. Fábio Sérvio analisa os bastidores do poder, decisões do Governo e o cenário nacional sob uma ótica clara e profunda. Para quem busca entender a engrenagem.
Margerete Coelho, candidata a pré-candidata ao Governo do Piauí
Foto: Divulgação

O título de "Miss Simpatia" é, por definição, uma honraria de consolação. Em concursos de beleza ou quadrilhas juninas, ele é conferido à participante que é amigável, gentil e circula bem entre todos os grupos. É o prêmio da personalidade, não do protagonismo. Na política piauiense de 2026, Margarete Coelho encarna essa figura com perfeição. Mas a pergunta que o eleitor e o Progressistas (PP) precisam fazer é: por que a "Miss Simpatia" não consegue vencer o concurso principal?

O Piauí de hoje não é mais o mesmo de dez anos atrás. A polarização nacional — o embate visceral entre Lulismo e Bolsonarismo, entre Direita e Esquerda — demorou a cruzar as nossas fronteiras, mas chegou com força total. E, nesse novo cenário, o político "doce" tornou-se irrelevante. Até Lula, o mestre do "Paz e Amor", entendeu que o figurino precisava ser trocado pela farda de guerra. Os bolsonaristas, do outro lado, compreenderam que o engajamento e a conexão real com o eleitor nascem do conflito e da defesa intransigente de bandeiras.

Enquanto o mundo político arde, o Instagram de Margarete Coelho parece uma ilha de serenidade açucarada. Há semanas, posts falam em "ética, honestidade e diálogo". No último domingo, o jargão do "abraço que cabe paz". Margarete tem currículo e estatura intelectual, mas lhe falta o "punch". Falta coragem para abandonar o banho-maria em que o PP a colocou e assumir um posicionamento que desperte paixão — ou rejeição.

Em seu post de cinco semanas atrás, fixado no seu Instagram, Margarete Coelho fala de sua trajetória política. Diz a legenda: “Sou Margarete Coelho, filha do Piauí. Advogada, professora e pioneira, fui a primeira mulher a assumir o Governo do estado. Minha trajetória é guiada pela ética, honestidade e diálogo. Arretada, trabalhadeira e honesta, acredito no poder do conhecimento, da proximidade e da cultura piauiense para inspirar e transformar.”

Genérico e açucarado, o texto não diz nada com coisa nenhuma. E assim seguem seus posts e legendas. No post do último dia 26, lê-se: “Um jeito de cuidar que atravessa todas as áreas da vida: com propósito, responsabilidade e humanidade. 🧡”. No domingo, o jargão do abraço: “Domingo bom é aquele que cabe num abraço assim… apertado, demorado e cheio de paz. 💚”

A hesitação do Progressistas em definir sua pré-candidatura ou substituí-la logo por Joel Rodrigues deixa margem para interpretações perigosas. Mas há algo ainda mais sintomático nesse "tempo que escapa": a oposição parece não ter percebido que o campo de batalha mudou de endereço.

No final das contas, Rafael Fonteles encontrou seu adversário mais perigoso não nas fileiras da oposição, mas dentro do próprio partido. A ameaça real está encarnada em Wellington Dias, que, nos bastidores, costura cuidadosamente o enfraquecimento do atual governador — chegando a desenhar, em silêncio, sua própria volta como substituto na chapa majoritária.

O eleitor, lá na ponta, não está entendendo nada. Assiste a um governo que brilha no marketing, mas que sangra por "fogo amigo", enquanto a oposição permanece em um estado de animação suspensa, aguardando uma senha que nunca vem. E quando o eleitor não entende o jogo, ele procura um esclarecimento em outro discurso, em outra via, em quem tenha a coragem de dizer o que está acontecendo sem o filtro da conveniência.

Se Margarete Coelho quer ser governadora, precisa entender que eleições não são concursos de cortesia. Se o PP quer vencer, precisa parar de esperar o movimento do adversário e começar a jogar. O vácuo de liderança e a confusão interna do PT são uma oportunidade de ouro, mas o tempo na política é um recurso não renovável.

O Piauí de 2026 não quer mais abraços demorados e promessas de paz. Quer saber quem tem força para segurar as rédeas de um estado que, por trás das cortinas, vive uma guerra pelo poder e que ainda mergulha na inércia de um desenvolvimento tardio.