No momento em que a política brasileira aprende a transformar investigação em conteúdo de rede social, Romeu Zema decidiu dar ao caso Banco Master uma moldura eleitoral. O ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato do Novo à Presidência publicou nesta segunda-feira, 11 de maio, o sexto episódio da série satírica “Os Intocáveis”, intitulado “Passa ou Trapaça?”, e incluiu no enredo o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ao lado do empresário Daniel Vorcaro e de outras figuras do poder em Brasília. O vídeo, produzido com bonecos gerados por inteligência artificial, repete a fórmula que Zema vem explorando nas últimas semanas: humor ácido, ataque político e um discurso de enfrentamento ao que chama de elite blindada da República.
A entrada de Ciro na série não foi um gesto isolado. Ela ocorre poucos dias depois de Zema já ter usado suas redes para atacar o presidente nacional do Progressistas, chamando-o, de forma indireta, de integrante do grupo dos “intocáveis de Brasília”. Naquele vídeo anterior, publicado após a nova fase da Operação Compliance Zero, o ex-governador afirmou que Vorcaro financiava “políticos vendidos” e sustentou que o escândalo ainda revelaria novos desdobramentos. O senador piauiense, portanto, deixou de ser apenas personagem lateral do caso Master para se tornar alvo explícito da retórica eleitoral de Zema.
O pano de fundo do embate é uma investigação que avançou sobre o núcleo político. Em 7 de maio, a Polícia Federal deflagrou a quinta fase da Operação Compliance Zero, com medidas autorizadas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. As ações foram cumpridas no Piauí, em São Paulo, em Minas Gerais e no Distrito Federal, com bloqueio de R$ 18,85 milhões em bens, direitos e valores. Segundo a PF, a operação busca aprofundar apurações sobre suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional relacionados ao caso Banco Master. A busca contra Ciro Nogueira marcou, segundo a Reuters, uma escalada da investigação para a esfera política.
No caso do senador, o que está sob investigação é a suspeita de atuação parlamentar em favor de interesses ligados a Daniel Vorcaro em troca de vantagens econômicas indevidas. A decisão que embasou a operação menciona, segundo os autos reproduzidos pela imprensa, indícios de repasses mensais que teriam variado de R$ 300 mil a R$ 500 mil, além de benefícios como viagens, hospedagens, restaurantes, voos privados e outras vantagens. A apuração também cita uma proposta legislativa atribuída a Ciro para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito, que, segundo a PF, teria sido formulada por assessoria ligada ao Banco Master.
A defesa de Ciro Nogueira rejeitou as suspeitas. Em nota divulgada após a operação, os advogados afirmaram que o senador “não teve qualquer participação em atividades ilícitas” e que está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos. Também sustentaram que medidas investigativas graves e invasivas não poderiam se apoiar apenas em trocas de mensagens, sobretudo quando parte delas envolveria terceiros. Em manifestação pública posterior, o parlamentar disse estar sendo alvo de perseguição política em ano eleitoral e afirmou que tentam atingir sua honra pessoal.
A ofensiva de Zema precisa ser lida dentro de uma estratégia maior. “Os Intocáveis” já havia provocado reação do Supremo depois que o ex-governador divulgou vídeos satirizando ministros da Corte, especialmente Gilmar Mendes e Dias Toffoli, no contexto do mesmo caso Master. Gilmar pediu a Alexandre de Moraes que Zema fosse incluído no inquérito das fake news, e o episódio consolidou o confronto entre o presidenciável e o Judiciário. Desde então, o mineiro passou a explorar o tema como marca política, combinando crítica institucional, linguagem de internet e apelo antissistema.
Ao incluir Ciro Nogueira no novo episódio, Zema dá um passo além: tira o caso Master do campo estritamente policial e o converte em peça de disputa presidencial. É uma operação política calculada. O vídeo não prova nada, nem pretende provar. Seu objetivo é outro: associar um adversário influente do centrão a um escândalo financeiro de forte repercussão e, com isso, reforçar a tese de que Brasília protege seus próprios atores até que a crise se torne incontornável. Essa leitura decorre da sequência dos fatos: o avanço da investigação, a reação quase imediata de Zema nas redes e a transformação do episódio em capítulo de sua principal vitrine digital de campanha.
No fim, a disputa revela menos sobre humor político e mais sobre método. Zema aposta na caricatura como arma de pré-campanha. Ciro responde com a tese da perseguição. Entre os dois, permanece o que realmente importa: a investigação segue em curso, as suspeitas ainda dependem de prova e a política, mais uma vez, tenta correr na frente da conclusão dos fatos.