O sucesso da DeepSeek no mercado de inteligência artificial passou a destravar investimentos e elevar valuations de startups chinesas do setor, segundo empreendedores e fundos ouvidos pela AFP.
A virada veio após o lançamento, em janeiro de 2025, de um modelo generativo de baixo custo com desempenho semelhante ao de chatbots como o ChatGPT. O avanço colocou a IA chinesa no centro da disputa com empresas americanas, mesmo com restrições dos Estados Unidos ao acesso da China a chips avançados.
Hoje, a DeepSeek tem 4% do mercado global de chatbots, de acordo com a Similarweb. O ChatGPT lidera com 68%, seguido pelo Gemini, do Google, com 18%.
Para Wu Chenglin, fundador da DeepWisdom, o impacto foi imediato. Ele afirma que sua startup quase quebrou três vezes antes de conseguir, no último ano, captar 220 milhões de yuans (cerca de US$ 30 milhões) em duas rodadas de financiamento, embaladas pelo novo interesse do mercado após a ascensão da DeepSeek.
Em Pequim, a Jinqiu Capital diz ter fechado acordos com mais de 50 empresas de IA nos últimos 12 meses. A vice-presidente do fundo, Shi Yaqiong, afirma que a busca por startups chinesas cresceu desde a chegada da DeepSeek. Segundo ela, projetos avaliados inicialmente entre US$ 10 milhões e US$ 20 milhões em 2024 passaram a mirar faixas de US$ 20 milhões a US$ 40 milhões em 2025.
O movimento também alcançou o mercado de ações. As startups chinesas Zhipu AI e MiniMax registraram disparada neste mês em suas estreias na Bolsa de Hong Kong.
A euforia global com IA, porém, convive com alertas sobre risco de bolha e dúvidas sobre quando as startups vão se tornar lucrativas. Na China, o cenário é atravessado pelos controles dos EUA sobre exportações de chips da Nvidia, medida desenhada para limitar o avanço tecnológico chinês.
Para o empreendedor Li Weijia, os controles tornam mais provável que a IA chinesa avance com modelos de “código aberto e baratos”, o que poderia ampliar o uso social da tecnologia.
O DeepSeek começou em 2023 como um projeto paralelo de um fundo de hedge cofundado em Hangzhou por Liang Wenfeng, que tinha acesso a processadores Nvidia de alto desempenho. A decisão da empresa de abrir detalhes de seus sistemas, em contraste com modelos fechados vendidos por concorrentes ocidentais, acelerou a adoção por desenvolvedores e companhias, segundo Neil Shah, da Counterpoint Research.
Shah diz que as ferramentas tiveram “forte adoção em mercados emergentes” por causa do custo. Já no Ocidente, aponta, o público é mais cauteloso, principalmente por preocupações ligadas à privacidade e à segurança nacional.
No mercado doméstico, a base potencial é grande. Até junho de 2025, mais de 500 mil internautas chineses relataram usar produtos de IA generativa, segundo o Centro de Informação da Rede de Internet da China.
A empreendedora Yang Yiwen relata que seus pais tiveram o primeiro contato com IA no Ano Novo Chinês de 2025, ao vê-la usar o DeepSeek para planejar uma viagem em família. “Eles acharam divertido”, disse.
Fonte: O Globo